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O desejo de escrever


Loucas: aquelas que são obrigadas a refazer o ato de nascimento a cada dia.
Hélène Cixous.

Estou tonta, zonza, 
                    a-tor-do-a-da... 
Preciso de água para me alimentar, 
para me derreter, 
para me filtrar, 
para me gelar, 
para me internalizar. 

Água que desce do rio. 

A racionalidade pesa em meus olhos. Ela me olha como uma megera, querendo me engolir, 
me degolar, 
me afogar no rio que desce, 
cortar minha língua 
que pensa, 
que cheira, 
que sente, 
que goza, 
que escorre. 

Querem abrir minha boca. Colocar um funil e entornar tumores, violência, signos. 
        Mutiladores
Submissão. 
Papel. 
Carne que sangra. 
                                            O funil está aí na sua boca? 

É preciso fazer doer aquilo que está duro. 
Cortar. 
Bater o machado. 
Crash! 
Quebrar essa coisa dura. 

Nossa existência não é exatamente como pintam. 
O que é o real das coisas? 
Quantas ficções foram feitas para chegar onde estamos? 

Veja o que re-al-men-te te deixa tonta. 

Estou com ver
                            ti
                                    gens... 

Eles riem de mim porque vejo as coisas e me chamam de louca. Querem me dar um anestésico. Querem paralisar minha dor, 
                                                minha língua, 
                                                meu corpo. 

Quero escrever a palavra certa que faça sentido. 
Para quem? 
Quero escrever, escrever, escrever tudo vem a minha mente até não conseguir ver mais nada. 

Estou cansada de ver as coisas e ninguém acreditar. 
Eu não aceito mais o funil na minha...
não deixo entrar obediência. 
Eu sei pensar. 
Mire só, eu não penso assim. 

Vejo você se esfregando em mim e Nele. Hoje não preciso mais de sexo. 
Eu sou o próprio sexo que pulsa. 
Abre e 
            fecha. 
Abra e 
            veja. 

É o galo quem canta de madrugada, sim. 
É o galo que briga. 
O cachorro dorme e observa, para te abocanhar. 
Você não parece ser poeta. 
Se acha, só porque usa chapéu panamá. 
Poetas não se exibem. 
Potes de água caem sobre a minha cabeça. 
Meu corpo pede um gemido... 
um pulsar...
Vontade de sair por aí. 
Gritar 
Gemer 
Andar de quatro 
Levantar o rabo... 
Sou um animal que dorme de tarde e escuta a chuva molhar a Terra. O líquido que escorreu entre as coxas e caiu primeiro na Terra semeando vida, foi do animal mulher. 


Aléxia Fernanda

Comentários

  1. Adorei! Parabéns 👏🏼👏🏼👏🏼🌹🌹🌹

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  2. Maravilhoso Aléxia.
    Essa diagramação, essa alternância de caixa alta e baixa, deu um movimento sensacional.
    Amei!!!

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  3. Alexia, ficou lindo o conto com a nova diagramação!!! Vai fundo!! Adoro seus poemas!! Pena que aqui vc não pode declamar! Se não, seria um arraso!!!

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    Respostas
    1. Esqueci de assinar! Adriana Mascarenhas, no último comentário! Poste mais Alexia!!! Beijos!!!

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    2. Obrigada, Adriana.🥰

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