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É o despertar que nos mata

“A vida é um sonho. É o despertar que nos mata. Quem rouba os sonhos, rouba-nos a vida” 
Virginia Woolf, Orlando


Estou aqui. É tarde. Você já foi embora. Olho de longe as luzes dos carros, os faróis acesos, um atrás do outro, movendo a rua que fora tímida na madrugada. Atrás, milhares de janelinhas e pessoas escondidas em suas vidas, atrás das películas de vidros sujos pela poluição, mas sempre com a promessa de ser limpo. Isso é vida. A promessa é vida. Ver a beleza nas coisas é um dom; ver a maldade também, mas machuca. Ambas são benção e maldição. O problema de quem sente demais é se doer toda, o tempo quase todo, e ser feliz tanto, e tanto, que embriagadas, caímos ao chão da sala vertiginosamente e oramos, ou choramos, ou então, escrevemos poemas. 

Quero te contar o que se seguiu à sua saída, agora que me recomponho. Sabe o Jack? então, ele fez xixi no tapete da cozinha, e eu só fui saber mais tarde, de madrugada, quando fui buscar um copo de água e me senti molhar antes os pés. O Jack tem saudade sua, sabia? mais que eu até. Ele perambula pelo apartamento, tadinho, vai pra lá e pra cá procurando seu jeito de afagar o pescoço dele, de lhe abraçar. Só você que o abraçava tanto daquele jeito que ele rosnava gostando, quase pulando em você. Quem sabe amar também sabe sentir raiva, e amar de novo. Ele até parou de comer uns dias, achei estranho, onde foi parar aquela criança, aquela fome toda do danado? A saudade vai comendo a gente pelas beiradinhas; quando você vê fez promessas, quando você vê, acredita no Deus das coisas. Quando vê, só sente. Quando você vai voltar, hein? Se eu também for à missa e prometer alguma coisa, como parar de comer pão com manteiga, ou de roubar balas como trocos na padaria, será que você volta logo? Eu e Jack iremos à missa, pronto, tá decidido. Domingo acho que é melhor, deve valer mais né. Vou pôr roupa boa, toda certinha, você riria de mim porque, oras, logo eu. Mas eu faria qualquer coisa. Dai, você vai chegar de supetão, pegando na maçaneta e gritando – abre, abre, Aninha, estou apertado! E tudo se abre pra você, e sorrimos juntos, e eu já corro preparar o café pra gente ficar horas conversando, até pegar no sono, ali no sofá mesmo, vendo filme antigo na tv. Sabe, antes de você ir embora eu não acreditava que podia doer tanto. Eu tenho meu trabalho, tenho amigas, saio de casa, preparo as aulas, dou risada enquanto apresento os átomos para os adolescentes e eles fazem brincadeirinhas do tipo, professora, Você acha um elétron e leva ele pra casa. Qual é o nome dele? Digo, não sei. E a sala responde em coro  Eletrondoméstico. Kkkk, eles escreveriam agora. E ouço você dizer ainda, Não tem jeito nunca de não morrer jovem com uma 5ª série por perto. Dizia que eu iria morrer jovial só porque dava minhas aulas. Eu acreditei todo o tempo. Mas não era verdade. Eu envelheci muito depois que você foi embora. Eu pinto meus cabelos agora (embora com excessiva preguiça), pinto a boca (essa eu gosto), mas há algo que me passou por dentro. Um véu por cima da alegria, que ainda existe, feito poeira no móvel velho e bom, feito para durar. Essa poeira que não tenho coragem de tirar porque, de certa forma, também sou eu, e você e nossa história. Acabei de ver uma ambulância, logo abaixo das janelas de luzes apagadas que te falei (ah, outro dia vou te contar da vizinha nova, ela tem fumado uns matos de cheiros estranhos, estou com vontade de fazer amizade com ela e ir lá experimentar, o que você acharia?). O sino está tocando. São dez horas da noite. Estaríamos indo para a cama, eu teria antes passado o perfume de flor, feito um chá para terminarmos o dia juntos. Agora, tenho ficado até tarde da noite, atravessando a madrugada sem ter sono; acordo assustada, com dor no peito, achando que morri. Outro dia, Jack que me salvou. Jack estou morta? Late, late! Eu disse. E ele latiu, e me lambeu, e choramos juntos. Ele ficou comigo para me lembrar que viver é isso também, e que não há jeito, vamos ter que seguir assim. É que você não vai voltar, não é? Amanhã no café farei ovos mexidos, arrumarei meu cabelo de lado, vou colocar água com gelo para o Jack e assobiar um pouquinho, como você fazia. Não vou despertar nunca, porque tendo sentido o que senti, não quero deixar de sentir. Estaremos, eu e Jack, dormindo com você enquanto vivemos alegremente, e muito, e sempre, do nosso novo e mal-acabado jeito, atrás de vidraças hora sujas, hora limpas.

Andréia Gileno



Comentários

  1. Deia, não conhecia este conto!! Lindo demais!!! Sua bio está a sua cara, delícia!!! Continuemos!!!

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