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Maré baixa


E agora ela tinha outra vida e não sabia mais como se encaixar diante de tanto tempo livre e tanta solidão.

Filho criado, casado, morando longe, e mais distante. Ficou viúva na pandemia. Ganhou pensão e pode se aposentar. Voltou para as suas raízes, as terras da família nas montanhas mineiras, onde sempre soube que iria envelhecer e morrer sem o marido por perto.

Morava em um chalezinho na área rural. Na verdade, a área externa de piscina da casa materna. Um estúdio amplo, uma cozinha pequena, banheiro e uma varanda que lhe servia de copa e sala de estar. A piscina só era frequentada quando as poucas amigas vinham lhe visitar. 

Já passara dos sessenta e estava bem em seu corpo esbelto e flexível. Sua libido lhe dava alegria. Deixou os cabelos crescerem grisalhos para justamente parecer mais velha. Usava-os em forma de coque, o que também lhe dava um ar mais senhoril. Mas vestia-se de maneira informal, não conseguia se vestir como uma sexagenária tradicional. 

Gostava muito de ler, escrever, caminhar, assistir filmes, conversar, namorar, comer bem... mas estava num período de entressafra. Tinha terminado uma relação afetiva por não conseguir conviver com um homem livre. Portanto, na verdade, seu coração ainda estava em luto. Ela não percebia isso muito claramente.

Sentia que estava num momento de esvaziamento, de maré baixa, de grande vazio, de desolação. Sabia que tinha que voltar para dentro de si, sentir a dor do não ter, do não pertencer, do estar realmente só na vida. Situação real que todo ser humano adulto precisa encarar.

Vazia de si mesma, sem esperança e por isso cansada, sabia que só tinha uma saída: entrar mais para dentro, ir mais fundo e tentar se reinventar a cada dia, a cada manhã, na intenção de encontrar sua força interna feminina para saber quem realmente era e para onde se levaria dali para frente.


Adriana Mascarenhas

Comentários

  1. Que profundo, Adriana. Os movimentos de uma mulher que tem a libido da vida.

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  2. Maré baixa. Recuo da água, de si. ela expondo a si mesma, vendo o q não podia, vendo o longe, o fundo, não sem receio... mas permitindo ser

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  3. Realmente inteira e viva!

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