É outono.
Que tal uma tarde para coisas pequenas? Que às vezes é preciso parar e perceber, não é?
Afastar-se para, então, olhar de novo. Percebe a diferença? Sentir a natureza a nos dizer: venham, venham, que sou vida em abundância.
Era dia de discussão do Diário de Asheham. Em nosso grupo, seis escritoras; cada uma faria um mimo. Colher uma florzinha, bater um bolo, fazer uma geleia, preparar um chá. Enfeitar a mesa, e, ainda, quem sabe, alisar a toalha cuidadosamente com as pontas dos dedos. Dedos de outono. Tudo inspirado pela leitura. Fresta. Tempo de Sentir.
"Fiquei o dia todo em casa", "Fiz uma capa de cadeira após o chá", "Um grande sol vermelho se pôs por volta das 6h". Coisas assim que Virgínia nos contou nas pequenas páginas, em seu diarinho tão cheio de "nadas"; dessa vida facilmente dita como “tão pouca”, à qual talvez nosso olhar esteja desabituado; vidinha brincante a esconder riquezas, entre lagartas e capuchinhas que sobem no muro.
Em nosso grupo, o tempo dividia-se. Lá fora, freneticamente corria como sempre (o bombeiro entrando na casa, a ambulância vindo lá longe) enquanto se expandia entre nós. Estávamos a sós, não exatamente com Shakespeare, mas com ela, Virgínia, nossa mentora e motivo pelo qual nos fizemos conhecidas. Os anos eram 1917, 1918 e 2025. Ela, em seus dias de folga, convalescendo no campo. Nós, em nossa tarde de estudos, contemplando a tudo, como quem ama.
Então, Asheham pode não lhe ter sido só uma limitação da escrita? Suas frases curtas eram também refúgio e aquele, o lugar de curar-se de coisas grandes pelas pequenas? Por que, então, o diário foi esquecido por tanto tempo, algo de tamanha importância, uma vez que ajuda Virgínia a voltar para nós? Por que ainda não aprendemos a (vi)ver o pequeno, se dele precisamos tanto?
Juntas, ao lermos o “diarinho de observações”, vivemos um certo estado de graça. Da graça de tê-la conosco e estarmos, através das linhas, nós também tão cheias de vida nascendo. Ainda que separadas por um século de distância, estávamos de mãos dadas na mesma caminhada, colhendo poesia às três da tarde.
Talvez nos tenha sido tanto porque também nós precisamos de algum tipo de cura, e sabemos. Que também nós queremos um pouso, um amor que não nos peça muito, um chá. Um alimento para essa fome tanta e pela qual resistimos escrevendo com Virgínia Woolf.
Foto e texto por Andreia Gileno
Mais registros do nosso chá:
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| Adriana Mascarenhas |
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| Aléxia Fernanda |
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| Ana Carol Mesquita |
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| Carla Carvalho |





Gosto tanto de seus textos, mas gostaria que vc os postasse mais! Tem pérolas aí no seu computador. Jogue-os aqui!!! Vamos reler nossos textos!!
ResponderExcluirAh que lindeza! Já tem textos novos!!! Olha lá!
ExcluirEsse dia e essa aula foram iluminados. Apesar de ter assistido a aula on-line, foi poderosa a sensação de ler O diário de Asheham com vc! Obrigada amiga woolfiana!!!
ResponderExcluir❤️
ExcluirOs 2 primiros comentários foram da Adriana Mascarenhas que ainda não sabia comentar!
ResponderExcluir❤️
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