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O escritor



O escritor iniciou sua fala sem saber que logo de cara citaria a escritora favorita dela. Ela empertigou-se um pouco, mas não se deixou levar pela coincidência. Não conhecia o tal palestrante. Apenas um escritor em voga no momento, pensou. Ao ser pontual para o evento literário, acabou sendo apresentada ao escritor junto aos professores. Ele ofereceu à instituição um livro de críticas sobre sua obra. Esse acontecimento também não a impressionou. Não era uma leitora comum, no sentido postulado por Virginia Woolf.

Ao tomar a palavra, o escritor falou de sua infância, da escolha da carreira em função da frustração da mãe, de sua escolha em ser escritor em tempo integral, ao invés de acadêmico, e sua realização como tal. Ela imaginou: sujeito louco ou corajoso demais para viver de literatura num país de iletrados.

Ao longo de sua exposição, mencionou o fato de Conrad ter produzido uma obra belíssima em língua inglesa, mesmo sendo polonês. Disse também que escrever não significava necessariamente sofrer. O exercício dessa profissão poderia incluir o prazer. Ao terminar, afirmou que era fundamental ler os clássicos. Coincidentemente ou não, esse era um dos projetos que ela realizava naquele momento de sua vida e percebeu que estava errada em seu julgamento inicial. Ele era bom. Não era apenas um escritor famoso; falava de um lugar acima dessa categoria tão em voga no momento. Parecia ter sido professor. De literatura? Seu encanto não poderia ser maior.

Ao final do acontecimento, esperou pelo seu autógrafo, sentindo-se meio ridícula. Ousou dizer-lhe a verdade: "Nunca li nada seu, não te conhecia, mas gostei de te ouvir." Ele agradeceu, autografou, e ela nem se lembrou de ler a dedicatória.

Voltou para casa rápido. Estava exausta pelo calor, mas excitada pela palestra, pelo encontro com o escritor. O marido tinha ido almoçar com os amigos, a filha com a avó, e ela foi com um amigo, que recebia naquele fim de semana, a um restaurante. Durante todo o almoço, falou sobre o tal escritor. Deixou o amigo na rodoviária sem tristeza, pois se veriam no próximo mês. Ao beijá-lo no rosto, sentenciou: “Gostaria de passar a tarde com ele.”

Em casa, finalmente só, tomou um banho rápido para se refrescar. Tentou relaxar ouvindo Billie Holiday, mas a frase Gostaria de passar a tarde com ele ecoava insistente dentro de si. Imaginou que, se fosse rápida, poderia pegar o trem das três e correr o risco de encontrá-lo na volta. Impossível! Loucura!

Vestiu seu vestido azul, o mais simples e recatado, e voou para a estação. Ainda não tinha certeza se deveria ir. Não tinha um tostão em mãos, só o cartão do banco sem fundos. O cobrador aceitou-o. Foi a última a pegar o trem. Achou-se ensandecida, mas decidiu não pensar muito a respeito.

Embalada pelo movimento do trem, pela paisagem azul da serra e o verde do campo enquadrados pela janela, buscou na memória o tempo em que, nos fins de semana, com a filha ainda pequena, ia passar o dia no adorável vilarejo.

Ao chegar, foi direto para a pequena praça ao lado da estação ler o livro autografado. Em poucos minutos, uma chuva de verão cortou o sol da tarde e acabou correndo de volta para o trem. Sentou-se no segundo vagão, e voltou à leitura. Como vou vê-lo? interrogou-se. Como vou encontrá-lo? São mais de 7 vagões... voltou a ler o livro. Aos poucos, foi  se desligando das pessoas que passavam, das crianças brincando e dos vendedores ambulantes gritando suas mercadorias. É bom, percebeu assustada, o texto é bom, é muito bom... e, vagarosamente, sem que percebesse, seu interesse pelo escritor foi-se esvanecendo e já nem pensava em encontrá-lo. Não era mais preciso. O texto já a transportara para o imaginário literário, seu lugar preferido.

Ao cabo de algumas horas, os turistas voltaram cheios de sacolas, com crianças barulhentas correndo pelos corredores, os jovens casais procurando lugares mais aconchegantes. Ela não percebeu o movimento, e nem se incomodou com o tumulto à sua volta. O trem apitou, balançou, esquentando sua máquina, mas ela achava-se alheia a tudo. Era assim que ficava, quando lia algo que a fascinava. 

No primeiro arranco da partida, assustou-se. Tirou os olhos do livro e deu de encontro com os do escritor entrando em seu vagão, com as mãos ocupadas com sacolas e badulaques para criança. Ele sorriu, e ambos se cumprimentaram.

Sem pensar, fechou o livro, levantou-se e foi ao seu encontro; sentou-se à sua frente, compartilhando da mesma janela, mas dando o devido espaço para se sentirem confortáveis. Conversaram sobre família, filhos, o lugarejo... seus silêncios eram preenchidos pelo apreciar da paisagem ao entardecer. Ciente de sua condição de leitora, parou de falar e deixou-o descansar. Ele acabou cochilando. Ela sentiu-se meio decepcionada. Tudo tinha sido tão mais vibrante pela manhã, e agora, que estavam próximos, o assunto era tão frouxo...

Chegando à cidade, ele convidou-a para um café. Decidiram ir juntos no carro, e depois, ela o deixaria em sua pousada. Numa pequena confeitaria, tomaram um café e continuaram a conversa. Preocupada em não cansá-lo mais, acabou logo seu café com bolo de cenoura e rumaram para a pousada. Ao chegarem, ainda no carro, ele agradeceu. Ela disse que tinha sido um grande prazer. Ele aproximou-se, e deu-lhe um beijo no rosto, e roubou-lhe outro no canto da boca. Ela petrificou-se por fora e por dentro, uma explosão de desejos sufocou-a violentamente. Pousou sua mão direita em sua perna que sentiu forte, vibrante e não teve olhos nem palavras para lhe devolver.


Adriana Mascarenhas

Comentários

  1. Parabéns! Sucesso! 👏😍❤️

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  2. Que venham muitos outros! Vou esperar com toda certeza!
    Bjos
    Lourdinha Godoy

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  3. Obrigada querida!! Vou tentar postar um toda semana. O segundo já está lá!!!

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  4. Que leitura deliciosa! Parabéns!
    Andrea Menezes

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    1. Vindo de vc é muito gostoso de saber. Toda semana, tipo sexta, será postado um conto novo! Vem coisas bem diferentes por aí! Beijo grande e saudades!

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  5. Muito legal! Tem mais? Ass. Eder Carneiro.

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    1. Obrigada! Toda semana terá um novo! Tem mais 3 amigas que escrevem nesse blog também! Os textos da Andreia são deliciosos e os poemas da Alexia, sensíveis! Dizem que uma boa maneira de ficar mais conhecido é postando nas redes. Aí depois, caso haja interação, publica-se. Te achei super corajoso de publicar, e acho que procede, vc escreve bem! Não dá pra ficar guardado nas gavetas, e a gente também vai tomando gosto em escrever! Tem sido uma experiência muito prazeirosa pra mim. Aposentada, agora tenho essa outra atividade: ler e escrever. Vc já se aposentou? Beijo grande pra ti!

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