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A festa


Apesar de já se sentir cansada no meio da manhã, voltou ao seu quarto contíguo ao do marido, que ainda dormia profundamente, para escrever um pouco antes dos convidados começarem a chegar. A festa estava quase toda preparada e sentia que já havia dado uma boa contribuição. 

Seus olhos já ardiam e aquele seu medo voltava: o de ficar cega e não poder mais ler. Para escrever daria um jeito, mas para ler teria que aprender o braile, e nem todas as obras se encontrariam transcritas. Imaginava que, para não enlouquecer, teria que pagar alguém para ler. Para tanto, teria que ter dinheiro, e este não lhe era fácil nem constante.

Não compreendia por quê, com vários diplomas, não conseguia um emprego que lhe desse o mínimo de sossego e tranquilidade. Tinha sempre que continuar dependendo do marido, generoso, mas desejante de uma mulher financeiramente estável.

A manhã estava clara e brilhante. Ao ir comprar o bolo na confeitaria mais cedo, embebedou-se dos ipês floridos. Encantou-se com as árvores frondosas e tão altas, de troncos negros e abundantes flores rosas, amarelas e brancas. Era a primavera gritando para quem quisesse ver. E ela via, e via... podia estar angustiada, mas quando se deparava com um flamboyant, um ipê florido ou uma amendoeira frondosa, o sorriso se abria nos lábios e a conturbação lhe dava trégua. Os pássaros também participavam desses momentos de encanto e alívio.  Como era possível, pensava, numa cidade tão grande, os pássaros ainda cantarem? Eram elas, as grandes árvores, que possibilitavam a vida para esses pequenos naquela cidade.

Respirava fundo e escrevia... o ressonar do marido lembrava-a de que teria pouco tempo para si. A falação fora de seu quarto se fazia ouvir e isso era outro indicativo de que o tempo não seria todo seu. Queria tanto tê-lo mais a sua disposição, usufruir de seus sentimentos com a folha branca diante de si, mas a vida não deixava. O trabalho cansativo, a família, sua saúde delicada, sua cadelinha já velha e doente... de repente, assustou-se. O ressonar do marido virou um sonoro ronco. Não conseguia mais ouvir o canto dos pássaros. Aumentou a velocidade da sua escrita.

Ela não se compreendia mais. Com idade próxima de se aposentar, ainda não era independente, mesmo ouvindo dizer que era uma boa profissional. Algo estava fora do lugar, fora de seu eixo. E o ronco parecia aumentar. Abafava o cantarolar dos bichos, deixando-a mais ansiosa. A falação fora do quarto aumentava e o tempo escoava pelo ralo. E ela não tinha chegado a lugar nenhum, nenhuma explicação, nenhuma luz, nenhum esclarecimento... nada fazia sentido e não seria em alguns minutos, escrevendo, que conseguiria alcançar o fio da meada, o fio de Ariadne para sair daquele labirinto que era a sua vida aos cinquenta anos de idade.


Adriana Mascarenhas 

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