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Carta à Sra. Woolf


Cara Senhora Woolf,

Encontro-me agora numa situação invulgar: estou indo de ônibus para minha casa na capital onde dou aulas de língua inglesa e meu marido acabou de me ligar para dizer que as chaves do carro e da casa ficaram para trás em nossa casa no interior. Já é noite e amanhã tenho que dar aulas às 7 da manhã.

Não há muito dinheiro disponível para se ficar rodando de taxi de lá pra cá. Mas tudo vai se resolver. O mais importante não é isso: tenho muito o que lhe dizer; que lhe contar; de maneira que eu possa viver ou morrer em paz, se é que isso é possível em pleno século XX.

O fato é que as coisas para nós mulheres mudaram, mas não tanto quanto deveriam. Desejo colocar a senhora a par do que anda acontecendo por aqui, mesmo que seja em outro país que não o seu, mas no continente que escolheste para seu primeiro romance, The Voyage out. A senhora não especifica claramente que foi no Brasil, mas alguns tomam a vila Santa Marina como uma região entre dois estados daqui: o Amazonas e o Maranhão. 

Estou no ônibus e há um engarrafamento antes da chegada da cidade. Ele pode ter 1, 2, 3 ou até 6km de extensão. Não estou nem um pouco ansiosa, pois decidi escrever-lhe ao chegar no final do maior livro lido em um longo tempo de leitura. Este ano foi para mim um ano de crise, parecido com alguns que você teve. Desculpe-me a informalidade logo no início da minha primeira carta, mas é que a conheço há mais ou menos doze anos.  

Preciso lhe contar uma história. Minha história e o quanto seus textos influenciaram minha vida. Tenho lido os seus livros publicados em português brasileiro. Alguns inclusive que você não pode ler. Não tenho toda a sua obra em língua inglesa, pois a libra é a moeda mais cara para nós do hemisfério sul.

Para lhe ser muito sincera, escrevo-lhe para não enlouquecer de vez, para suportar todo o meu fracasso como profissional, e para, de alguma forma, escrever sobre você, aliás, conversar com você para não continuar me sentindo como uma ratazana, como as da antiga Londres. Perdoe-me, portanto, a ousadia, mas ela alicerça-se na força do desespero, e sei que a senhora me compreende perfeitamente. Somos as destrambelhadas, as frágeis que não suportam as pressões desse mundo cão, mas que tantos vingam, tantos não enlouquecem como nós. 

Não pense que tenho a menor intensão de chegar a seus pés. Você era genial, você, dentro de todo o seu sofrimento, ajudou a mudar, a transformar toda a literatura inglesa do século XX. Você foi genial. Hoje você é uma referência na literatura mundial. E de repente, você nem sabe disso. Onde é que você está Virginia? Será que você, onde quer que esteja, sentirá as vibrações dos meus sentimentos? Nas lágrimas que verterei nessas cartas? Na alegria que invadirá meu peito ao conseguir te dizer tudo o que tenho a dizer? Sei que eras agnóstica, mas hoje, com a Física Quântica, sabemos que o pensamento é uma energia poderosa, que viaja quilômetros, em velocidade inimaginável.

Você tinha um ousado projeto literário e conseguiu realizá-lo. Eu só quero não me afogar no rio seco de uma vida insignificante. Não tenho hoje a coragem que tens, pois hoje tenho uma filha linda, de vinte anos. Está na faculdade. É uma grande leitora, apesar de não ter ainda descoberto você. É atormentada como nós e escreve poemas desde a adolescência.

O tempo está acabando, em dez minutos chego à rodoviária e não tenho tempo de lhe escrever mais por uns 3 dias. Mas já sinto uma certa alegria. Não, não é alegria. É uma leve esperança. Esperança em pegar em sua mão e poder sair do limbo, do lodo, da insignificância de minha existência. 

Fico por aqui, e obrigada – se é que isso cabe aqui. 


Adriana Mascarenhas


Comentários

  1. Que linda carta. Vontade de que tenha escrito outras e nos presenteie aqui com elas, Adriana.

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    1. Que linda carta. Vontade de que tenha escrito outras e nos presenteie aqui com elas, Adriana.

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    2. Também espero que outras venham Deia! É forte conversar diretamente com ela! Adorei a sua também!

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