Já sinto a aproximação das coisasque até agora só percebemos vagamente
Estou diante do mar e não reluto. Fecho os olhos. É preciso cuidado. É sempre uma hora derradeira para mim, ouvir o mar. Há pontos de confluência que não entendo, só sinto. Fui minha mãe e também minha própria filha. Fui me parindo ao longo desses anos todos. Fui aprendendo a maternar e filhar sobre mim mesma, e só agora sei que fiz bem, incluindo todos os meus erros. Errar me torna humana, meu remorso é ter sofrido demais e desnecessariamente, acho. Conheço os movimentos de meus choros antes que chorem; mal chegam e já estou com uma xícara de chá ou apenas em silêncio, com os braços abertos. Estive exausta esses tempos e sei que só em frente ao mar eu renasço de verdade e por isso estou aqui, onde não guardo mentira alguma.
... pois tinha-se aberto um buraco em minha mente, uma dessas súbitas transparências através da qual vemos tudo
Agora, que não é cedo nem tarde, agora que eu tenho todos os motivos para ir embora, agora que os outros dormem e eu acordo plenamente, é quando eu escolho ficar. Tendo o mundo em minhas mãos, e me assusta como é pequeno. Caminhei até aqui, cedi-me inteira à areia e tenho todos os pontos do meu corpo tocando esse chão mole. Eu que me quebrei toda para viver o que vivo agora – vê, estou em pedaços todos colados pelo tempo – me sinto única como uma concha; estou fazendo barulhinhos por dentro enquanto você me ouve; ouve?
Há dias venho tendo essa coisa urgente do instante, desse apertar os dedos na areia e do movimento que os pés me fazem de volta. Ela (a vida) afunda no mesmo tempo em que crescemos juntas. Qualquer coisa fora daquilo que nos toca é a pior mentira que podemos sentir. Tenho sal em minha boca, uma sede incessante. Sou tantas que nem me procuro mais – e, em frente ao mar, quanta tolice seria; sei que uma delas emergirá a qualquer instante, e já sem o susto do começo. Agora que o sol desce e toca a água, agora que ninguém me ouve, agora que estou mais perto do que nunca saberemos, eu já posso ir embora. E levar somente as coisas desnecessárias. Eu que vim do mar, eu que só diante do mar me entrego verdadeiramente. Um, dois, três passos –
as ondas aprofundam o seu ritmo
Sou mãe, sou filha. Respiro fundo o mundo todo – o que fiz e me fez. Está claro agora e é hora. Deito-me sobre as águas. Adormeço.

Ouço ondas claricianas, woolfianas e galeanas. Belo texto Deia!
ResponderExcluirComo sempre!
Adriana M.