Pular para o conteúdo principal
Sabe o que mais gosto em você?

Quando você chega e me beija a testa, olhando para baixo, abaixando e encostando a cabeça no meu ombro. Um segundo. Em menos de um segundo e o mundo girou todinho; já não tenho dores, está tudo perdoado e não reclamarei nas próximas três ou quatro horas. Posso passar o café, adiantar a janta, alisar a sua camisa; o que você me pedir eu farei, e enquanto isso eu vou te contar o que fiz hoje, de que foi feito o meu dia, perguntar o que acha da minha nova ideia, que não sei se devo... e vou esperar você colocar as coisas no banco, mexer no cabelo, lavar as mãos; eu vou esperar enquanto vejo você pensando, ponderando o que lhe disse e com poucas palavras responder que sim ou que não. você me lembra o viver sem esforço que fiquei sabendo ser possível só ontem quando chegou. e me alegro tanto de ver que você já sabia, você sempre soube. as pausas nas suas falas são os ventos que batem na janela de baixo, são o voo dos pássaros nos alpendres das cidades de Minas, são o tempo das rosinhas de jardim, aquelas miúdas. eu queria aprender a ser assim grande com o que tenho, mas eu sou mesmo só uma vontade; que de mim desce um raio toda vez que quero apaziguar as coisas aqui dentro, sabe? e me queima ainda viva. porque se me alimento da paixão eu poderia também viver do amor, e não teria tanto trabalho. mas não. eu abandono as coisas quando elas ficam boas pra mim, é isso o que fiz até aqui. eu vou embora no meio da festa, quando ainda servem um bom drink. eu deixo para trás o que amo porque talvez eu pense que não mereço, ou seja mesmo só para ter pelo que queixar, e sofrer e gritar minhas dores do mundo. eu já te falei que sempre coloquei filmes tristes para que eu pudesse chorar, sem ninguém saber que o choro é só o mesmo de sempre? eu te contei que me arrasto pela parede durante o banho, e finjo ser a solitária que sou? eu não te contei nada disso porque é o que você me traz que eu quero, e não o que eu já tenho; porque eu, eu já me conheço e não vejo tanto mais graça. eu quero o que não posso, o que nunca serei, e você, você me lembra isso tudo. ao me ler, você saberá que não é de ti que falo, porque eu também sei mentir, você sabe. E mentirei porque é muito penoso ser o amor de alguém, eu sei; e eu, que te amo tanto, quero que você não saiba disso. Porque você, você tem a calma dos santos, você tem o passo dos bons, você tem o tempo que me escapa; você não precisa ser o meu amor, não precisa. E, acredite, não precisar é bom.Andreia Gileno
Admiro quem escreve como quem respira. Espontâneo e sem esforço. Naturalmente.🌷
ResponderExcluirObrigada por ler!
ExcluirAh, não assinei o comentário acima..rs.. 🫣.Soninha.
ResponderExcluirQuerida
ExcluirEnigmático. Fluido. Intenso. Generoso no sentido. Delicado e terrível ao mesmo tempo.
ResponderExcluir