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O casal


Estava completamente zonza, com vertigens semelhantes à labirintite, mas sabia que não era isso, não dessa vez. Definitivamente, não poderia mais dormir na mesma cama que o marido. Os roncos e grunhidos não permitiam que tivesse uma noite bem-dormida. Mesmo que ficasse mais na cama pela manhã, no dia seguinte, sentia-se uma mosca ébria, bamba. Voltou para a cama após dar o café para o marido, achando que repondo o seu sono roubado conseguiria vencer o dia. Mas o espírito não queria. Sofregamente, foi ao escritório, pegou seu Clarisse e tentou ler na poltrona azul de seu quarto. A alegria piscou em seu ser.

O romance não era dos mais leves. Nunca tinha lido nenhuma crítica a respeito, e isso a agradava. Estaria sujeita a surpresas. Pelo que lera até então, percebia que um leitor comum não passaria da vigésima página. Clarisse não era para qualquer um, principalmente esse, pensava. Já estava na quinquagésima página de uma obra de duzentas e quarenta, e nada de incomum ou significativo havia acontecido. Era justamente isso que ela mais gostava: a escrita das percepções, dos exercícios de impressões, sensações do vivido. Referências ao cotidiano mais trivial e insólito. Momentos de puro não ser. Ela se perguntava, estupefata, como a autora conseguia escrever assim. Simples e audaz. 

Clarisse inicia o livro narrando a infância pacata de uma menina pobre no interior do país. “E de repente um movimento de vida parecia precipitar-se e cair no mesmo plano – a sensação de queda quando se dorme. Imutável, imutável”. As fantasias da personagem, seus pensamentos, seu viver banal. A meditação era seu modo de viver. Sua árida relação com a mãe e o pai. O amor pelo irmão mais velho. Apenas isso. Em cinquenta páginas. No entanto, poesia à flor da pele. 

O texto da autora era translúcido. De um fino toque. Vago, misterioso. Delicado e duro. Suas metáforas eram puras e sensoriais, quase coloridas: “Virgínia ergueu o corpo. Num momento inspirada e livre, lançou a resposta numa voz alegre como uma roupa a esvoaçar na corda”. Esse era o nome da personagem menina. E ela ali, lendo, já não sentia tanta vertigem, os lábios num semi-sorriso indiciando seu prazer. “Ela seria fluida durante toda a vida. Porém o que dominara seus contornos e os atraíra a um centro, o que a iluminara contra o mundo e lhe dera íntimo poder fora o segredo. O segredo de uma história a porvir, que nem ela mesma sabia que seria a protagonista.” 

Ela vivia num tempo perdido. Estava chegando aos cinquenta e nada havia construído além de um casamento relativamente sólido que floresceu e murchou na partida da filha para a cidade grande. Tentou ir atrás para agarrar o último sopro de vida que lhe restava, mas fracassou. Voltou para casa com o espírito cerrado ao meio. O marido, depois de muito sofrer sua ausência, sentiu-se aliviado e tentou retomar a vidinha de sempre. Era um bom homem. Ciente da triste insignificância de ambos, ela tentou levar seu viver como um barco meio velho que se deixa na beira da praia. A corrente de suas vidas era vagarosa, monótona, insossa. Viveram a vida como vivem os pinguins, apenas para a sua prole. Se essa se perde, eles se perdiam em vão/também.


Adriana Mascarenhas

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