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O encontro


Uma enorme floresta com árvores frondosas, imensas, troncos gigantescos em meio à vegetação de pequeno porte. As copas redondas das árvores maiores pareciam que davam as mãos umas com as outras: jequitibá-rosa, pau-ferro, pau-mulato, pau marfim, jequitibá do brejão, açoita-cavalo, figueira, todas formando um tapete multicores verde. Através da luz que surge nas rachaduras da escuridão da mata, percebe-se a vida florescer nas vegetações mais baixas: ervas e gramíneas, musgos, brotos, trepadeiras que se enroscam nos troncos das árvores. Mesmo durante o dia, nas sombras, umidades, espécies invisíveis se desenvolvem. Pelas folhas secas pode se escutar as preás e cotias brincando. Mil bichinhos voadores a cantarolar no alto das árvores: capitão-de-saíra de peito alaranjado desperta primeiro em tom menor e terminando em tom maior, acordando todos na mata; o papa-taoca-do-sul, com seus olhos cor de sangue, piando fininho; o falcão-relógio cantando em boa hora anunciando sua reprodução; a araponga com seu papo verde a bater um sino bem alto no coração da floresta; o canto do gavião chocão-carijó que mais parece um grilo; o sabiá-una de bico e olhos amarelos dá um show; o tucano-de-bico verde a destacar com seu peito vermelho em todo o verde da floresta; o pica-pau-chanchã, ponta de bico na casca da árvore; o pássaro todo negro com bico vermelho, o famoso bico-de-fogo, canta suave como um violino; o tangará-dançador, um pontinho azul no verde, não só canta, mas também dança; a saracura-do-mato sempre avisa quando o dia começa e termina em balbúrdia pela mata. 

Caminhar aveludado, leve, macio, bem devagar, passos delicados entre as folhagens secas úmidas. Silêncio. Espiar a orquestra na floresta. Simultaneamente o olhar se concentra em cada ruído à procura de comida. A sua única necessidade neste momento. Qualquer descuido é fracasso na caçada. A seca do rio denuncia dificuldades. Abriu os olhos de caçadora. Ela estava à espera de algo. Quieta à beira do rio. Observava... cada mergulho, barulho sobre a água. Olhar brilhante. Espreitar e atacar a qualquer momento. Peixes pulavam e voltavam num esplêndido mergulho sobre as águas barrentas. Splash... Agachada. Quieta. Só se escuta sua respiração. Pressente a presença de carne. Batimentos cardíacos acelerados. Respira lentamente veloz.

Algo se movimenta na profundeza. As duas contemplam. Ondas circulam na superfície intensamente. Mesmo agachada, fixa o olhar. Posição. Um salto. Flutua no ar. Tchibum... Mergulha. Certeiro. Boca, dentes perfuram a casca dura como de um jabuti, num instante. Força e luta. A presa não consegue escapar. Mergulho se revirando no profundo. Respiração ofegante, olhos fixos. O submergir, voltar a superfície. Força. Descansar. Morder. Caminhar para a terra firme. Os pés se afastam, devagar. Se esconder atrás do mato. O solo firme garante a morte da presa. Olhares brilhantes se cruzam. Em frêmitos. Somos irmãs, jaguanhenhém.


Aléxia Fernanda

Comentários

  1. Você também é uma escritora de contos, Alexia!!! E que conto este aqui! Delicadamente violento. Belíssimo amiga, de tirar o fôlego. Amei o "Somos irmãs, jaguanhenhém". Não fique sós nos poemas. Brinde-nos vez ou outra com seus pérola-contos. Beijo carinhoso numa passarinha que tem voado alto com as palavras.

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  2. Vc acaba de ganhar mais um leitor! Motivado a continuar lendo seus textos!

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  3. Afonso Guerra-Baião25 de junho de 2025 às 09:44

    Motivado a continuar lendo seus textos!

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