Antônio era escritor. Encontrava-se numa fase pouco criativa, mas já tinha passado por isso outras vezes; nesses períodos aproveitava para ler seus mestres: Tchékhov, Woolf, Babel, Mark Twain, Lispector... Lia também alguns teóricos do conto, seu gênero preferido.
Antônio precisava de umas férias e decidiu ir para o Rio de Janeiro; seria delicioso pegar uma praia em Ipanema ou Leblon, visitar umas exposições, ir a um bom teatro; bebericar uma caipirinha na praia com uma porção de petiscos do mar.
Ao seu lado ele gostaria de uma companhia feminina para conversar, admirar. No segundo dia de praia, viu uma mulher de maiô preto que parecia ter uns quarenta anos. Ela se comportava como se estivesse sozinha na praia; não olhava para ninguém, perto nem longe. Lia um livro e isso por si só instigou o escritor a ir ao seu encontro. Era irresistível para ele saber o que alguém estava lendo. Aproximou-se, com seu corpo moreno, forte e um sorriso aberto no rosto:
“Bom livro”?
“Sim”, respondeu ela, levantando o rosto e protegendo seus olhos com a mão.
“Posso saber o título”?
Ela baixou a cabeça.
Ele ficou sem graça.
“Desculpe, sou curioso. Não precisa.”
“Não é um autor muito conhecido, mas é brilhante. O título é A dama do cachorrinho”.
“Tchékhov! Um dos meus preferidos”!
“Você é escritor”?
Conversaram por umas duas horas; ele cada vez mais encantado, ela, gentil, mas contida. O assunto girou em torno de literatura, viagens e a crescente violência na cidade. Ela quis saber porque ele escolheu o Rio para suas férias, já que não se sentia seguro ali.
Antônio percebeu que toda hora ela checava uma bolsa preta. Nisso, a fome dos dois chegou e ele a convidou para comer algo em um dos quiosques da calçada. Pediram um vinho branco e risoto de frutos do mar. Ao fim, estavam um pouco cansados do calor e da digestão que se fazia pesada. Combinaram de sair para jantar à noite.
Antônio estava encantado. Jamais pensou encontrar uma mulher interessante e enigmática na praia que também estivesse interessada nele, afinal, ela aceitou o convite para o jantar. Ela tinha algo de misterioso; parecia ter muito a dizer, mas não se permitia.
Ela chegou com um longo de linho claro e sua bolsa pesada. O restaurante era charmoso, com fotos preto e branco de músicos, pintores e escritores famosos que revelava o bom gosto do proprietário. Pediram um Malbec para acompanhar um Tournedor de filé mignon ao poivre com aligot de batatas. Mais ao fundo do restaurante, um piano tocava baixinho um jazz.
De repente o pianista começou a tocar Angel eyes, uma das músicas favoritas de Antônio e, num impulso pouco familiar, tirou-a para dançar. Ela hesitou, sem saber se levava ou deixava a bolsa. Sua mão era macia, seu corpo esguio encostou-se com naturalidade ao de Antônio; ele sentiu um tremor perpassar toda sua pele.
Ficou claro que depois de jantar seguiriam juntos para o hotel. Comeram em silêncio, apenas suas respirações conversavam. Não pediram sobremesa; apenas um espresso; saíram de mãos dadas. Ele abriu a porta do carro para ela e seguiram em direção ao hotel. Ele procurou por sua mão, encostou em algo duro e frio; retirou a mão instintivamente, mas seus olhos encontraram uma Beretta 22 apontada para ele.
Não houve encontro em hotel algum àquela noite.
Muito menos novos contos de Antônio, que amava Tchékhov.
Adriana Mascarenhas

Parabéns pela escrita fluida, sucinta e deliciosamente agradável, Adriana. Obrigada por compartilhar
ResponderExcluirObrigada amiga!! Outros virão!!
ExcluirEscreva seu nome no próximo comentário!
ResponderExcluirAdriana que leveza para escrever.Fiquei com uma curiosidade, vc matou o Antônio?
ResponderExcluirEla o matou!!! Eu não!! rs... (Se puder colocar o seu nome!)
ExcluirMuito curioso... Escrita instigante, dá vontade de continuar lendo... Mas queria saber... Ela o matou?
ResponderExcluirEla é meio "serial killer", rs... sem menor pudor. (Se puder colocar o seu nome!)
ExcluirMuito bom Adriana. Um desfecho imprevisível!!! Gosto disso.
ResponderExcluirObrigada querido! Outros virão!
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