Leninha não presta, está se engraçando com um homem quase vinte anos mais velho que ela. Como se não bastasse ser casada e ter um amante de vinte anos, enrolou-se com outro mais velho que o marido.
Não tem jeito. Onde essa mulher vai parar? É uma ninfomaníaca ou doida pelo dinheiro deles. Mas eles nem são tão ricos assim, embora seja de grão em grão que a galinha enche o papo, ou a buceta, no caso dela. Ela é buraco sem fundo, garganta profunda. Cruzes!
Ela nem é grandes coisas, já passou da idade, tem o cabelo ruim e o corpo está bem caidinho. Tantas mulheres melhores e mais bonitas do que ela, eu mesma, estou em mais boa forma. Não entendo isso, acho que não entendo mesmo são os homens. Uma mulher casada, com filho, com amante pra lá e pra cá e ainda arruma outro? Mais velho?
Ele é do Rio, tem aquele jeito carioca safado que ela tanto gosta. Teve um noivo assim, foi louca por ele. Uma vez ela me disse, no pé do ouvido, que os homens mais sacanas eram os cariocas, com aquele sotaque. Era só fechar os olhos e ouvi-los falar que já ficava toda mole. Mole... bem sei. Que coragem de me dizer essas coisas. Fingia que achava tudo natural, só para ela ir se abrindo, falando. Eu ficava enojada.
Leninha sempre foi diferente. Era brigona na escola, subia a saia do uniforme para ficar mais curta, não gostava de usar a gravata da blusa engomada. Engomada era a minha, a dela era só passadinha. Não era das primeiras da sala, nem nota boa tirava. Vivia dando trabalho para as freiras, tão boas conosco.
Nós éramos de famílias tradicionais, tínhamos que dar o exemplo, mas a doida da Leninha nem ligava. Muito pelo contrário, fazia tudo para sujar a nossa reputação. Era uma desnaturada, não uma moça de bem como nós.
Um dia vai acabar em crime passional e ela vai se estrumbicar. Vou estar lá para ver tudinho. Vagabunda! Ela não merece todo esse luxo de marido, amante e agora, outro, que ainda por cima é carioca. Filha da puta essa Leninha.
Bem que eu podia dar uma forcinha para o destino, adiantar certas coisas. Aquilo me tomou por inteira, não pensava em outra coisa. Imaginar seu marido louco de ciúmes, querendo bater nela, querendo matá-la pela traição. Ela chorando, as pessoas vendo, comentando, rindo. Sua derrocada final.
Tinha que ter cautela, pois eu não poderia aparecer na história. Amarrei todos os detalhes, inclusive o dia. Era aniversário do filho mais velho. A família estaria toda reunida. Liguei para seu marido.
“Preciso contar algo para o senhor. É que Leninha, é, eu a vi com alguém. O senhor sabe, ela já tem um e agora outro.” Ele não entendeu. Expliquei que ela agora tinha dois amantes. Ele ficou em silêncio. Eu não sabia como continuar. Fiquei tão apavorada que parecia até que eu é que era culpada, eu é que era Leninha. O silêncio pesou. Pensei em desligar. Mas fiquei paralisada. Ele redarguiu: “A senhora tem certeza do que está falando?” Disse que sim, que a tinha visto com um e depois outro em situação suspeita.
Mais silêncio. Eu não pude aguentar. “O senhor não vai dizer nada?” Depois de um silêncio maior: “Vou sim. Como a senhora se chama?” Silêncio. “Bem, não é preciso dizer. Mas eu gostaria de lhe fazer uma proposta: se encontre comigo na esquina da Rua Oswaldo Aranha com a Morais e Castro, perto da sorveteria Polar, amanhã às 16 horas.”
Naquela noite, foi impossível dormir.
Às 16 horas da tarde seguinte, cheguei ao local marcado. Ele chegou logo em seguida, percorreu com os olhos meu corpo de cima à baixo, o que me encantou, tremi toda por dentro. Ele me ofereceu seu braço e entramos num taxi. Ficamos todo o percurso em silêncio.
Ele me despiu cada peça, passando a mão por todo corpo, me beijando, dizendo como poderia me comer, coisas que jamais ouvi em vida, apertando, puxando levemente meu cabelo até que me pegou no colo, jogou na cama e fez o que havia prometido: me comeu de todas as maneiras que, na miopia de minha vida de mulher pouco amada, desconhecia.
Adriana Mascarenhas

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