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A despeitada

Leninha não presta, está se engraçando com um homem quase vinte anos mais velho que ela. Como se não bastasse ser casada e ter um amante de vinte anos, enrolou-se com outro mais velho que o marido. Não tem jeito. Onde essa mulher vai parar? É uma ninfomaníaca ou doida pelo dinheiro deles. Mas eles nem são tão ricos assim, embora seja de grão em grão que a galinha enche o papo, ou a buceta, no caso dela. Ela é buraco sem fundo, garganta profunda. Cruzes! Ela nem é grandes coisas, já passou da idade, tem o cabelo ruim e o corpo está bem caidinho. Tantas mulheres melhores e mais bonitas do que ela, eu mesma, estou em mais boa forma. Não entendo isso, acho que não entendo mesmo são os homens. Uma mulher casada, com filho, com amante pra lá e pra cá e ainda arruma outro? Mais velho? Ele é do Rio, tem aquele jeito carioca safado que ela tanto gosta. Teve um noivo assim, foi louca por ele. Uma vez ela me disse, no pé do ouvido, que os homens mais sacanas eram os cariocas, com aquele sotaque. ...

Férias de escritor

Antônio era escritor. Encontrava-se numa fase pouco criativa, mas já tinha passado por isso outras vezes; nesses períodos aproveitava para ler seus mestres: Tchékhov, Woolf, Babel, Mark Twain, Lispector... Lia também alguns teóricos do conto, seu gênero preferido. Antônio precisava de umas férias e decidiu ir para o Rio de Janeiro; seria delicioso pegar uma praia em Ipanema ou Leblon, visitar umas exposições, ir a um bom teatro; bebericar uma caipirinha na praia com uma porção de petiscos do mar. Ao seu lado ele gostaria de uma companhia feminina para conversar, admirar. No segundo dia de praia, viu uma mulher de maiô preto que parecia ter uns quarenta anos. Ela se comportava como se estivesse sozinha na praia; não olhava para ninguém, perto nem longe. Lia um livro e isso por si só instigou o escritor a ir ao seu encontro. Era irresistível para ele saber o que alguém estava lendo. Aproximou-se, com seu corpo moreno, forte e um sorriso aberto no rosto: “Bom livro”? “Sim”, respondeu ela,...

O casal

Estava completamente zonza, com vertigens semelhantes à labirintite, mas sabia que não era isso, não dessa vez. Definitivamente, não poderia mais dormir na mesma cama que o marido. Os roncos e grunhidos não permitiam que tivesse uma noite bem-dormida. Mesmo que ficasse mais na cama pela manhã, no dia seguinte, sentia-se uma mosca ébria, bamba. Voltou para a cama após dar o café para o marido, achando que repondo o seu sono roubado conseguiria vencer o dia. Mas o espírito não queria. Sofregamente, foi ao escritório, pegou seu Clarisse e tentou ler na poltrona azul de seu quarto. A alegria piscou em seu ser. O romance não era dos mais leves. Nunca tinha lido nenhuma crítica a respeito, e isso a agradava. Estaria sujeita a surpresas. Pelo que lera até então, percebia que um leitor comum não passaria da vigésima página. Clarisse não era para qualquer um, principalmente esse, pensava. Já estava na quinquagésima página de uma obra de duzentas e quarenta, e nada de incomum ou significativo ha...

O encontro

Uma enorme floresta com árvores frondosas, imensas, troncos gigantescos em meio à vegetação de pequeno porte. As copas redondas das árvores maiores pareciam que davam as mãos umas com as outras: jequitibá-rosa, pau-ferro, pau-mulato, pau marfim, jequitibá do brejão, açoita-cavalo, figueira, todas formando um tapete multicores verde. Através da luz que surge nas rachaduras da escuridão da mata, percebe-se a vida florescer nas vegetações mais baixas: ervas e gramíneas, musgos, brotos, trepadeiras que se enroscam nos troncos das árvores. Mesmo durante o dia, nas sombras, umidades, espécies invisíveis se desenvolvem. Pelas folhas secas pode se escutar as preás e cotias brincando. Mil bichinhos voadores a cantarolar no alto das árvores: capitão-de-saíra de peito alaranjado desperta primeiro em tom menor e terminando em tom maior, acordando todos na mata; o papa-taoca-do-sul, com seus olhos cor de sangue, piando fininho; o falcão-relógio cantando em boa hora anunciando sua reprodução; a arap...

Dança comigo esta noite

Dormir. Relaxar. O rio a correr, a música a tocar. Cam, você tem que fazer igual a Matilde: 17 pontos, 17 vezes, 17 fragmentos, colocar o rio na beira do Rio. Lily é raivosa e chora porque está cansada de cuidar. Cuida, cuida sem parar. Enquanto Rose costura suas meias furadas entre os dedos médios e o dedão, para dançar no quarto com ele. Só com ele. Você dança só comigo esta noite? Não deixe ninguém me pegar naquele táxi e tirar para dançar primeiro. Dança só comigo. O rapaz de nariz amassado gosta de apertar, esmagar as mãos. Por que é com tanta força? Chame para dançar, por favor! Pés: dois pra lá, dois pra cá. Esqueci como dança com você. Coisas atrapalham, a caixa de óculos e o livro que a Virginia emprestou para ir na praia e ver o farol. José sacode os pés e grita: “trem bão!”. Você dança comigo só mais uma vez? As cortinas fecharam, será nossa vez. Toque leve nas mãos. Pairar como um cisne negro, voltar delicadamente sobre a superfície da água. Ele me assustou um dia. Vi ele d...

Um poema para seus cabelos

Sol que arde água que te banha pés que pisam o chão com clareza vida que te leva ao vento nas montanhas        flores       vulcões       cavernas Mar que te navega e  te oferta todas as noites para mim. Poema para meu amigo Irlem. Aléxia Fernanda

Amado leitor

Quero a página em branco Quero capturar a página em branco Marcá-la Domá-la Possuí-la E depois devolver o sumo da vida, do amor, a palavra A palavra branca, de prosa, poesia, lírica Quero muito Quero tudo Quero vomitar minhas entranhas Cuspir meus horrores, meus tormentos, meus mais terríveis anseios Quero você, amado leitor Quero tua cumplicidade, tua total aceitação Quero teu desejo por mim, pela minha escrita, minha verve  Pelo meu gozo em te trazer junto até aqui, agora, neste exato momento Como se cavalgássemos em dois puros-sangues Juntos percorremos os vales relvados  Juntos para a direita, para a esquerda Ora para o meu lado, ora para o teu  Vem, caro leitor! Sou toda tua! Tome minha linguagem Aproxime-a da tua mente, do teu corpo Coloque aqui, mais embaixo Minha mão, a tua mão Meu sexo, o teu sexo Amado leitor Adriana Mascarenhas